Que Fazer?

erguer a bandeira revolucionária do marxismo-leninismo
A Crise do Imperialismo é a Crise da Divisão Internacional do Trabalho ou a Segunda Grande Depressão da Fase do Imperialismo.
A tese que queremos levantar é:
O imperialismo vive uma crise de qualidade e profundidade novas, a crise de uma nova divisão internacional do trabalho.
Já afirmamos, em razão do ponto de vista de classe em que se colocam, a incapacidade dos ideólogos da burguesia de verem essa crise como ela é (ver o texto Algumas Lições da Crise para a Nossa Luta1). Apesar disto, eles percebem que a crise apresenta características novas que não podem compreender e uma dimensão que são incapazes de medir.
Niall Ferguson, professor da Universidade Harvard, ideólogo da moda e personalidade midiática, em entrevista à Folha de São Paulo, batiza a atual crise econômica como a “terceira grande depressão”, levando em conta a crise de 1873-18782. Também o governador do Banco de Espanha, Miguel Angel Ordoñez, em entrevista ao jornal El País, admitiu a possibilidade de uma “grande depressão” mundial dizendo que a atual crise é a “mais grave desde a Grande Depressão” de 19293. Até mesmo quem, por razões de ofício, se vê obrigado a negar a realidade, não consegue escapar a essa caracterização. "Não serei o presidente do Federal Reserve da segunda Grande Depressão", disse Bernanke4. Já é.
Se desconsiderarmos a crise de 1873-78, citada por Ferguson, pelo fato de que o capitalismo ainda não se havia constituído enquanto uma economia mundial, construído uma economia mundial, podemos ficar com a expressão e dizer que a percepção de Ferguson está correta. No caso de Bernanke, trata-se apenas de compreender a frase pelo que ela realmente é: seu contrário.
Vivemos a segunda grande depressão desde que o sistema capitalista entrou em sua fase imperialista, no começo do século XX.
Hoje já nos é possível comprovar que a crise econômica tem similaridades com a crise de 1929, com a diferença de que se dá dentro de uma nova e inusitada divisão internacional do trabalho e em um nível muito mais alto de integração da economia capitalista mundial.
Em primeiro lugar, porque a presente depressão se constitui no desenvolvimento de um longo período de crise, o que quer dizer um longo período no qual o agravamento das contradições da economia mundial não permitiu uma retomada “sadia” e duradoura da taxa de lucro, período que pode ser caracterizado, resumidamente, pela incapacidade da economia mundial capitalista de contrarrestar a tendência à queda da taxa de lucro.
Em segundo lugar, pelo seu aspecto quantitativo, sua magnitude.
Terceiro, a crise, a despeito da intervenção inédita, em magnitude e coordenação, dos aparelhos de Estado capitalistas, os Estados e seus Bancos Centrais, dos organismos internacionais, aparelhos internacionais a serviço da reprodução do capital, esforço multi-trilionário que já ultrapassou US$10 trilhões, de acordo com o FMI5 (o que representa quase 20% do PIB mundial estimado para 2009 pelo próprio FMI), ainda está longe de terminar.
Abaixo incluímos alguns gráficos que podem mostrar a dimensão devastadora da crise. Os gráficos, em inglês, foram tirados do texto A Tale of Two Depressions (Uma História de Duas Depressões), de Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke6.
Esses gráficos foram, intencionalmente, preparados para comparar estatísticas atuais e de 1929, igualando-as a um número-índice igual a 100 na data do início de cada uma das depressões.
O primeiro gráfico abaixo (Figura 1), da produção industrial mundial, mostra que, nos primeiros 14 meses da depressão (tal como selecionado pelos autores), de abril de 2008 a junho de 2009, o desempenho da economia mundial em 2008-2009 era o mesmo que no período correspondente de 1929-1930, uma queda de pouco menos de 15%.
Figura 1
Em seguida, os mesmos autores apresentam esse mesmo indicador para comparar a situação individual dos principais países imperialistas (Figura 2). Percebe-se que, em todos eles, à exceção dos EUA, a produção industrial caiu mais agora que na primeira grande depressão.
Figura 2
Figura 2
Por um lado, e é importante ter claro esta questão, isso mostra que esta não é a “crise do subprime” ou uma crise dos EUA apenas. Por outro lado, pode-se ver que esta não é, tampouco, uma “crise financeira”, como os ideólogos do imperialismo e seus aliados reformistas pretendem crer em sua tentativa desesperada de “salvar” os capitalistas “bonzinhos” (sic!), os produtivos.
As seguidas crises dos anos 1970 (1973-1975, 1978) impuseram à reprodução do capital barreira de tamanha monta que não conseguiu ser superada nem pela política de empréstimos dos anos 1970 nem pela política neoliberal que se seguiu.
O capital, para superar sua crise (as crises dos anos 1970), a partir de meados dos anos 1980, começa a engendrar uma nova divisão internacional do trabalho respondendo à necessidade de sua reprodução, de sua valorização: manter a taxa de lucro.
A crise atual é uma grande depressão mundial. Uma grande depressão da economia capitalista mundial, do imperialismo.
A lógica intrínseca à reprodução do capital, desenvolvimento e crise, implica que a cada fase de desenvolvimento se anteponham obstáculos, barreiras cada vez maiores e, como dizia Marx, "em escala mais poderosa" à valorização do capital, para serem superados pela nova crise.
As seguidas crises dos anos 1970 (1973-1975, 1978) impuseram à reprodução do capital barreira de tamanha monta que não conseguiu ser superada nem pela política de empréstimos dos anos 1970 nem pela política neoliberal que se seguiu.
O capital, para superar sua crise (as crises dos anos 1970), a partir de meados dos anos 1980, começa a engendrar uma nova divisão internacional do trabalho respondendo à necessidade de sua reprodução, de sua valorização: manter a taxa de lucro.
A Simbiose EUA-China e a Nova Divisão Internacional do Trabalho
A nova divisão do trabalho na economia mundial se expressou:
  1. no rompimento com as sucessivas transformações/desdobramentos da divisão internacional do trabalho entre dominantes e dominados pelo qual passou a divisão do trabalho entre países desde o processo de formação das condições de surgimento do capitalismo, desde a formação do antigo sistema colonial, e que se fez, primeiro, entre metrópoles e colônias, e depois entre países dominantes/países imperialistas e países dominados.
  2. na produção de uma nova divisão internacional do trabalho que vai se dar sob a simbiose das economias dos EUA/China, principalmente, e que vai parquear a economia mundial, determinar novas posições na economia mundial às diversas formações econômico-sociais.
Essa nova divisão do trabalho ainda se caracteriza:
  1. na tendência crescente de transferência da indústria dos países dominantes, principalmente dos Estados Unidos e mesmo de países dominados que haviam atingido um determinado nível de industrialização, para a Ásia, principalmente para a China, na busca de contrarestar a queda da taxa de lucro.
  2. na constituição de um mercado consumidor (meios de produção, matérias-primas e bens de consumo inclusive e, principalmente, para garantir a reprodução da força de trabalho) compreendido pela construção de um novo setor industrial na Ásia, particularmente na China, e de um novo mercado mundial - exatamente nos países dominantes, principalmente os EUA, assim como países dominados capazes de realizar bens de consumo de média e alta tecnologia, que estavam transferindo sua indústria, se "desindustrializando" no processo, o que quer dizer, aumentando o desemprego e reduzindo a base de consumo - para os bens de consumo produzidos crescentemente na Ásia.
  3. na constituição de uma "esfera" financeira7 capaz de absorver e aplicar a crescente massa de capitais gerados pela industrialização crescente da Ásia, e principalmente da China, em cima de uma taxa de lucro extremamente elevada nas novas condições de produção. Tanto capaz de financiar (criar crédito) não só o processo de transferência da indústria para a Ásia, como de criar crédito para garantir a realização desta produção, o consumo crescente de uma produção crescente. Essa mesma esfera financeira também permite, no mesmo processo, a valorização fictícia de capitais.
Antes de prosseguir, é necessário apresentar números que possam comprovar a centralidade, com relação à economia mundial, do que qualificamos de simbiose entre a economia dos EUA e da China parqueando o sistema imperialista.
Como temos afirmado em nossos documentos essa simbiose está presente nos diversos aspectos da atividade econômica, nas trocas comerciais, nos dividendos e lucros pagos, nos investimentos e aplicações financeiras. Claro que essa simbiose também se alarga para gerar uma ideologia desse processo que, na China e nos seus vizinhos, substitui a realidade da restauração capitalista, da miserável condição da classe trabalhadora, especialmente urbana, da disputa sem quartel pelo maior lucro, por uma visão idílica de progresso e de desenvolvimento.
A simbiose EUA-China na nova divisão internacional do trabalho, a partir do papel que cada país desempenha, a partir da presença dos monopólios americanos na China, a partir das exportações e dos investimentos chineses nos EUA, dá origem a um complexo jogo de relações financeiras, fluxos de capitais entre os dois países. Simplificadamente:
  1. a instalação das empresas monopolistas americanas na China origina fluxo de capitais sob a forma de investimento estrangeiro direto EUA-China.
Muito embora este seja um fenômeno visível a olho nu, as estatísticas oficiais não são analiticamente confiáveis. Nos números do governo dos EUA, os investimentos diretos dos EUA na China são incrivelmente baixos, menos de 1,5% do estoque total. Isso decorre da estratégia das transnacionais de se instalarem primeiro em paraísos fiscais e, depois de assegurada sua imunidade tributária e fiscal e seu sigilo bancário, investir seu capital nos países de destino8.
Achamos relevante a citação abaixo porque indica os números reais da transferência das indústrias dos EUA para a China e de seus impactos:
O crescimento chinês se alimentou do endividamento dos EUA. Ouvi de Antonio Napole a bela imagem de ‘irmãos siameses ligados pelo fígado’ ao binômio EUA-China. Podem vir a se odiar, mas são inseparáveis em um horizonte previsível. Tanto na China quanto nos países de sua diáspora (Taiwan, Tailândia, Filipinas, etc.) estão instaladas milhares de filiais americanas. Sete mil na China, 1.800 somente em Hong-Kong. Taiwan é uma ‘maquila’ mais relevante que a do México” (Carlos Lessa9).
Na ausência de dados oficiais publicados que comprovem diretamente a magnitude do movimento do capital dos EUA para a China, buscamos outras maneiras de comprovar nos dados da realidade este processo.
Considerando os dados da Unctad10 sobre investimentos estrangeiros diretos percebe-se a trajetória desse movimento, seu crescimento e magnitude. A restrição é que só estão disponíveis informações sobre o total desses investimentos recebidos pela China, sem separação por país de origem.
Figura 3
Figura 3
Como vemos no gráfico acima (Figura 3), os fluxos anuais atingem recorde em 2007, US$ 83,5 bilhões, exatos US$ 80 bilhões a mais que em 1990. Mais, os fluxos somados indicam ingressos de US$ 773,5 bilhões em investimentos estrangeiros diretos na China nos últimos 18 anos. Esse número é semelhante ao levantamento do estoque de investimentos diretos na China feito pela Administração Estatal de Câmbio do governo chinês11, US$ 742,4 bilhões em 200712.
  1. esses monopólios exportam de suas filiais na China para suas matrizes nos EUA e os pagamentos dessas exportações são outros fluxos de capitais EUA-China.
No mesmo artigo citado, Carlos Lessa afirma: “Li sobre a estimativa que mais de 40% das exportações chinesas são realizadas por filiais americanas instaladas na China”.
Apresentamos a balança comercial entre EUA e China na tabela abaixo (Tabela 1). A informação mais relevante é que, do déficit comercial total dos EUA em 2008, um terço foi déficit com a China. Em números, US$285 bilhões de um total de US$865 bilhões. Mais ainda, o déficit com a China, nos 18 anos apresentados na tabela, aumentou 20 vezes.
Tabela 1
Fonte: Bureau of Economic Analisys (BEA)13
A importação de produtos chineses pelos EUA mostra o ganho de importância dessa relação comercial. Essas importações aumentaram quase 18 vezes de 1991 a 2008, enquanto as importações totais dos EUA, apenas quatro. Isso significa que as importações chinesas, que já representam 16,5% das importações totais dos EUA, estão excluindo progressivamente do mercado dos EUA importações de outros países. Em parte, dado o preço baixo obtido por tecnologias modernas, pelos baixos salários e pelo câmbio desvalorizado. Não menos importante, no entanto, é o fato de, como afirmado acima, parte relevante dessas importações ser feita a partir de filiais de monopólios americanos instalados na China, vendendo para suas matrizes.
Ainda em relação às importações pelos EUA de produtos fabricados na China, podemos ver que consistem principalmente em produtos manufaturados. Isso mostra, por um lado, a importância do deslocamento de transnacionais para a China (e, também, a crescente importância das indústrias chinesas de exportação, mostrando a força de sua crescente burguesia monopolista). Por outro lado, mostra a diferença da relação China-EUA, das exportações chinesas para os EUA, comparada à relação dos EUA com os países dominados, nos quais mesmo os mais industrializados (como o Brasil) ainda têm suas exportações majoritariamente dependentes de commodities com diferentes graus (embora sempre pequenos) de transformação industrial. A tabela abaixo (Tabela 2) mostra os principais produtos importados pelos EUA da China.
Tabela 2
Principais produtos importados pelos EUA da China: 2004 a 2008
Fonte14: USITC DataWeb. Nota: Classificação Industrial Norte-Americana (NAIC), abertura a 4 dígitos.
Combinando as informações dessa tabela com as importações totais da China, tem-se que os cinco produtos acima listados respondem por mais de 40% das importações totais de produtos chineses pelos EUA.
  1. essas empresas apuram lucros na China e remetem para suas matrizes, gerando fluxos no sentido contrário, China-EUA.
  2. além disso, há empréstimos bancários, emissões de títulos, aplicações financeiras e todo o tipo de geração de capital na “esfera” financeira para financiar esses movimentos do capital que geram, a todos os momentos, fluxos de capital de um lado a outro a título de novos empréstimos, pagamentos, juros, etc.
Uma pequena parte desse movimento pode ser observada a partir dos dados do balanço de pagamentos dos EUA. A tabela abaixo compara a relação dos EUA com a China e a relação dos EUA com o mundo inteiro. Dadas as limitações na divulgação dos dados bilaterais EUA-China, só disponíveis para as grandes contas, reunimos na primeira parte da tabela a soma de todos os fluxos de capitais (investimentos diretos, ações, títulos do Tesouro, etc.).
A Tabela 3 mostra que a participação da China é crescente no financiamento das contas externas dos EUA, atingindo mais de 10% de 2005 a 2007. Então, em 2008 a depressão se aprofunda e o que acontece?
Tabela 3
Fonte15: Bureau of Economic Analisys (BEA)
Os demais países passam a sacar seus investimentos nos EUA, buscando resolver seus próprios problemas internos. Assim, os fluxos de investimentos estrangeiros líquidos para os EUA caem, em 2008 (US$534 bilhões), para um quarto do que foram em 2007 (US$2.129 bilhões). Se excluirmos a China, no entanto, o que era US$1.869 bilhões, em 2007, passa para apenas US$91 bilhões, em 2008. Ou seja, a capacidade/vontade do mundo (exclusive China) financiar os déficits americanos reduziu-se, em 2008, a 5% do que fora no ano anterior.
Enquanto isso, a China quase dobra, em 2008, seus investimentos nos EUA em comparação a 2007. Resultado: o resto do mundo parou de financiar os EUA (e foram cuidar de suas próprias “depressões nacionais”), ao passo que a China aumentou seus recursos aplicados nos EUA, 83% dos investimentos líquidos de estrangeiros nos EUA, em 2008, vieram da China. Com isso, a China desempenhou – e ainda desempenha – papel fundamental na tênue sustentação da economia dos EUA e, por conseqüência, da economia mundial.
A simbiose EUA-China é o aspecto central na economia mundial atual. A economia mundial imperialista assenta-se nas complexas relações EUA-China e, a partir delas e de suas conseqüências, configura-se a nova divisão internacional do trabalho de que tratamos.
Como conseqüência dos investimentos chineses nos EUA, vemos na segunda parte da Tabela 3, o total dos juros, lucros e dividendos (rendas de investimento estrangeiro) que os EUA pagam para a China aumentarem em termos absolutos e em percentual do total. De todas as rendas que os EUA enviam para o mundo inteiro, mais de um quarto já vai apenas para a China. Só para ser novamente investido nos EUA, gerar mais lucros para a China os investir novamente, em uma espiral fictícia sem fim.
  1. os dólares das exportações e dos investimentos são aplicados pelo governo chinês nos EUA, gerando mais um fluxo de capitais China-EUA
Um último aspecto sintetiza todos os anteriores nessa simbiose China-EUA: a evolução das reservas internacionais chinesas, as maiores do mundo, e sua parcela aplicada nos EUA, já tendo há muito superado as japonesas16.
Com um regime de câmbio administrado, toda a moeda estrangeira obtida pelos investimentos externos no país acaba nas reservas internacionais chinesas, administradas pelo Banco do Povo da China (o banco central do país). Pelo gráfico abaixo (Figura 4), no qual as reservas passam, em pouco menos de duas décadas, de menos de US$20 bilhões para quase US$2 trilhões, podemos ter uma aproximação da magnitude desse processo.
Figura 4
O mais importante é perceber que uma proporção aproximadamente constante desse crescimento todo teve um destino certo: os títulos do Tesouro dos EUA. De acordo com dados do Departamento do Tesouro dos EUA17 a China detinha US$60 bilhões desses títulos ao final de 2000 e US$768 bilhões em março de 2009. Com isso, a participação desses títulos no total de reservas chinesas manteve-se aproximadamente constante nesta década, 40% (Figura 5).
Essa estatística subestima o total de aplicações de reservas chinesas em títulos dos EUA. Nas referências utilizadas e no gráfico abaixo (Figura 5) só estão considerados os Títulos do Tesouro dos EUA. Faltariam considerar os títulos estaduais, os de agências governamentais americanas (como Fannie Mae e Freddie Mac), além de toda a sorte de títulos privados. Essas informações, no entanto, não são publicadas por nenhum dos dois países e não são facilmente encontradas, tampouco, estimativas confiáveis.
Figura 5
Os gráficos acima (Figuras 4 e 5) permitem, novamente, verificar o papel da China na sustentação da economia dos EUA e mundial na atual depressão. De meados de 2006 até o começo de 2008, a China pareceu justificar o discurso de fuga do dólar. Como se vê na Figura 5, a participação passou de 39,6% (junho de 2006) para 28,2% (maio de 2008), pois, dos US$856 bilhões do aumento das reservas chinesas no período, apenas US$135 bilhões foram para os títulos do Tesouro dos EUA. É claro que podemos levantar a hipótese, a mais provável, de que a outra parte pode ter ido para ativos americanos mais rentáveis.
Com o agravamento da depressão, o que ocorre? Em menos de um ano a participação volta a 39,3% (março de 2009) com novos investimentos de US$261 bilhões. As reservas chinesas cresceram, no mesmo período, “apenas” US$157 bilhões.
Estes são os dados que estão por trás das cobranças do Premiê chinês e do Presidente do BC da China para que o governo americano cuide bem dos seus investimentos e das promessas do Presidente dos EUA (e de sua Secretária de Estado, de seu Secretário do Tesouro e demais autoridades) de que os EUA continuam um porto seguro para investimentos.
Repita-se: a China desempenhou – e desempenha – papel fundamental na tênue sustentação da economia dos EUA e, por conseqüência, da economia mundial.
A simbiose EUA-China é o aspecto central na economia mundial atual. A economia mundial imperialista assenta-se nas complexas relações EUA-China e, a partir delas e de suas conseqüências, configura-se a nova divisão internacional do trabalho de que tratamos18.
A Depressão como crise do sistema imperialista e as tendências de sua evolução
O processo de valorização do capital à taxa de lucro conveniente dentro da nova divisão internacional do trabalho encontrou o seu limite, o seu obstáculo. A crise é a impossibilidade de continuar valorizando o capital à mesma taxa de lucro, "à medida que a taxa de valorização do capital global, a taxa de lucro, é o aguilhão da produção capitalista (assim como a valorização do capital é sua única finalidade),…" (Marx, K. O Capital. Volume IV. Livro Terceiro. Tomo 1. Nova Cultural. 1986, p.183).
O obstáculo levantado por essa fase da reprodução do capital expresso na atual crise tende a não ser superado com o desdobramento da mesma divisão internacional do trabalho. Ou seja, não apenas a crise não tende a ser superada na atual divisão internacional do trabalho, como essa crise não está a gerar uma nova divisão.
O que parece estar acontecendo é – ao contrário do delírio reformista de um capitalismo mais equilibrado e regulamentado – a retomada atual da especulação das bolsas de valores e fundos de investimentos. Com isso, mostra-se a validade da nossa tese expressa no parágrafo anterior, pois o capital está buscando a saída da crise na repetição ou ampliação de suas próprias causas.
Tampouco o capitalismo pode sair da crise planejadamente, como querem os seus ideólogos novos e velhos, os novos reformistas e os velhos keynesianos, o que inclui criar uma nova divisão internacional do trabalho, mais “equilibrada”.
Portanto, a tendência é a de que, diante da ação mais ou menos coordenada dos Estados capitalistas a serviço do capital, tentando frear a crise, que esta vá se aprofundando gradualmente e perdure por um largo período de tempo e de que o capital sob o aguilhão da taxa de lucro lute por buscar melhores condições de produção por todo o mundo e, em especial, a baixar o valor da força de trabalho para manter a taxa de lucro.
Analisando a configuração atual da economia mundial, do imperialismo, as suas contradições e tendências, a conjuntura na qual a crise vem se desenvolvendo tende a:
Em primeiro lugar a fazer regredir a tendência de contínua integração da economia mundial, expressa nas quedas dos fluxos de capital, de mercadorias e de força de trabalho.
O sistema capitalista tendeu, mesmo que de forma descontínua, a expandir-se à escala mundial, tendência que criou, primeiro, a partir da revolução industrial, propriamente um mercado mundial para o capitalismo e, depois, já na fase imperialista, uma economia capitalista mundial.
A crise de 1929, e o período histórico que lhe é posterior, até o final da II Guerra Mundial, representaram um primeiro obstáculo de monta a este processo de integração, resultando de uma contra-tendência à desintegração e desarticulação econômica.
Pode-se comprovar esse recuo na integração econômica hoje e durante a crise de 1929 de várias formas. O gráfico abaixo (Figura 6), do mesmo texto acima citado (A Tale of Two Depressions), apresenta a contração no volume do comércio mundial (exportações mundiais) nos períodos da primeira e da segunda depressão mundial. A queda já se aproxima de 20%.
Figura 6
Em segundo lugar, temos as próprias projeções – otimistas! – dos organismos internacionais capitalistas. A projeção mais atual do FMI para o mesmo indicador é de queda de 12,2% neste ano (atualização das projeções do documento Perspectivas Econômicas Mundiais19), enquanto o PIB mundial deverá diminuir 1,4% pela mesma projeção. O Banco Mundial aposta em -9,7% (Financiamento do Desenvolvimento Global 200920) e, da mesma maneira, a queda do comércio mundial é bastante superior à contração do PIB mundial, projetada pelo Banco Mundial em 2,9%.
O gráfico abaixo (Figura 7) ilustra bem essa tendência. Ele foi tirado do Relatório sobre Comércio Mundial de 2009, da Organização Mundial do Comércio (OMC). Com dados trimestrais ocorridos até o final de 2008, mostra o impacto da crise nas exportações dos países da OCDE que passaram de crescimento de mais de 6% ao final de 2007 para queda de mais de 6% ao final de 2008. E 2009 ainda não aparece no gráfico...
Figura 7
PIB real e crescimento do comércio em países da OCDE, 2007-2008.
Fonte21: OMC. Relatório sobre Comércio Mundial 2009, pg. 1.
Portanto, pode-se comprovar que o comércio em países da OCDE vai sofrer uma queda muito maior que a de seus PIB, o que nos permite levantar a hipótese de que uma parte da produção de cada país, antes exportada, está sendo consumida internamente.
Por fim, temos a exacerbação das tendências nacionalistas e protecionistas, cujas contradições com a tendência à integração econômica mundial emergem durante a crise. Isso vai desde a cláusula “Buy American” incluída na primeira versão do plano econômico de Obama, passa pelo abandono dos países às negociações comerciais na rodada de Doha da OMC e pelos inúteis apelos do francês que preside a OMC contra o protecionismo22, e chega às inúmeras medidas que todos os países têm tomado para, direta ou indiretamente, restringir suas importações.
A disseminação do protecionismo é tal que a própria OMC, “traindo” sua razão de ser, aceitou recentemente defender algum nível de protecionismo como positivo23, posto que inevitável.
A crise tende a agravar a luta de classes na maioria das formações econômico-sociais que compõem o sistema imperialista, agravando a contradição antagônica fundamental do capitalismo – a contradição burguesia/proletariado – porque força o agravamento da luta da classe dominante para rebaixar o preço da força de trabalho, tanto nos países imperialistas quanto nos países dominados, para permitir, primeiro, as condições de valorização do capital em todo o mundo; segundo, condições ao capital (a produção), nesses países, de concorrer com o capital que se deslocou (a produção) para a Ásia ou Europa Oriental – neste último caso, principalmente os países imperialistas da Europa, etc. – e porque força o agravamento da luta da classe dominada para resistir a este rebaixamento do valor da força de trabalho.
A crise tende a gerar novas condições de concorrência entre capitais na economia mundial, forçar os capitais a buscar novas condições de valorização. Gerar novas condições de concorrência entre as novas frações nas classes dominantes (frações do capital), e contradições entre elas, especificamente a concorrência direta entre o capital que participou/participa do movimento/processo de reconfiguração da divisão internacional do trabalho e os setores/frações que restaram com suas indústrias em seus países de origem, tanto imperialistas quanto dominados, ainda que de forma diferente nuns e noutros, isto é, contradições entre frações de classe que deslocaram sua indústria ou parte dela, e as frações que continuam produzindo nas condições anteriores. Frações que passam a disputar o Estado em seu benefício. Aqui estamos tratando não só da contradição que se estabelece dentro de um mesmo ramo de produção como também da contradição no geral que se estabelece pela concorrência entre duas frações do capital, disputando o mesmo mercado, produzindo a taxas de lucro diferentes.
A crise tende a gerar o agravamento das contradições interimperialistas tendo em vista que países, ou trustes e cartéis, que conseguiram se adiantar à tendência e passaram a produzir em novas condições aumentam suas vantagens sobre outros países ou empresas. O fato de que países ou cartéis e trustes estão produzindo com maior taxa de lucro tende a acirrar a concorrência, a disputa por mercados e fontes de matérias-primas.
Como demonstrou a classe dominada, na luta de classes, a crise não a abateu, ao contrário, ela se lança em ações cada vez mais amplas. É verdade que à maioria dos países falta um partido revolucionário o que vem limitando a capacidade de luta das classes dominadas e é verdade também que ainda não saímos, inteiramente, do período de defensiva da classe operária na luta de classes, diante da crise de sua teoria, crise teórica e prática. Portanto, o que nos cabe fazer é retomar a teoria e a prática do proletariado.
Notas
  1. http://cemflores.blogspot.com/2009/01/algumas-lies-da-crise-para-nossa-luta.html Voltar ao texto
  2. Folha de S. Paulo, 13.07.2009, caderno dinheiro. Voltar ao texto 
  3. El País, 21.12.2008, http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1062104 Voltar ao texto
  4. O Estado de São Paulo, 27.07.2009, http://www.estadao.com.br/noticias/economia,bernanke-diz-que-medidas-agressivas-evitam-2-grande-depressao,409046,0.htm Voltar ao texto
  5. http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090801/not_imp411820,0.php Voltar ao texto
  6. Disponível em http://www.voxeu.org/index.php?q=node/3421 Voltar ao texto
  7. É necessário criticar a visão que vê na "esfera" financeira uma esfera independente da esfera produtiva. O que Lênin constata no início do século passado, em "O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo" é exatamente o maior entrelaçamento dessas esferas do capital, sua fusão. Voltar ao texto
  8. Como exemplo, na mesma estatística em que a China aparece com menos de 1,5% do total do estoque de investimentos diretos dos EUA no exterior, a Alemanha aparece com 3,5%, a França com 2,4% e o Japão com 2,5%. Enquanto isso, “potências econômicas” como Luxemburgo e Irlanda têm, respectivamente, 5,2% e 4,6%. A Holanda então, nem se fale, seria o destino de 14% desses investimentos! Para completar a prova da inutilidade cabal dessas estatísticas, o “pujante” conjunto formado por Bahamas, Barbados, Bermudas, República Dominicana, Jamaica, Antilhas Holandesas, Trinidad e Tobago e outras ilhas do Caribe representam 10,9% do total. Voltar ao texto
  9. O Futuro Mais Além do Varejo. Valor, 29.07.2009, A21 Voltar ao texto
  10. http://stats.unctad.org/FDI/ Voltar ao texto
  11. http://www.safe.gov.cn/model_safe_en/tjsj_en/tjsj_detail_en.jsp?ID=30307000000000000,1&id=4 Voltar ao texto
  12. O número da Unctad para esses estoques é impressionantemente diferente dessas estatísticas oficiais chinesas. Em 2007, segundo a Unctad, o número seria apenas US$ 327,1 bilhões ou 44,1% do número divulgado pela China, o que mostra o problema das estatísticas de IED, em especial das relativas à China. A Administração Estatal de Câmbio (State Administration of Foreign Exchange, cuja sigla em inglês é SAFE, não por coincidência...) apresenta US$ 742 bilhões (que parece mais compatível com o método de geração de estoques a partir da acumulação de fluxos) e a Unctad, apenas US$ 327 bilhões (número ridículo, pois apenas os fluxos de 2004-2007 já o igualam). Voltar ao texto
  13. http://www.bea.gov/international/ Voltar ao texto
  14. MORRISON, W. (2009). China-U.S. Trade Issues. Congressional Research Service Report for Congress. 23 de junho, tabela 5, pg. 6. http://www.fas.org/sgp/crs/row/RL33536.pdf Voltar ao texto
  15. http://www.bea.gov/international/bp_web/list.cfm?anon=71®istered=0 Voltar ao texto
  16. Outro país que desempenha papel relevante para financiar os déficits dos EUA (comercial e fiscal) é o Japão. Juntos, os governos da China e do Japão detêm quase a metade do estoque de dívida pública dos EUA nas mãos de estrangeiros. Voltar ao texto
  17. http://www.treas.gov/tic/mfh.txt e http://www.treas.gov/tic/mfhhis01.txt Voltar ao texto
  18. Um autor como José Luís Fiori, que analisa o mesmo problema – o sistema econômico internacional –, ainda que a partir de referencial teórico eclético, parece chegar a conclusões similares: “a relação entre a economia chinesa e a norte-americana se transformava no coração e no pulmão da economia mundial” (pg. 50); “mudança estrutural mais profunda, provocada, em grande medida, pelo expansionismo imperial dos Estados Unidos e pela relação ‘siamesa’ que se estabeleceu entre esta ‘globalização’ americana e o ‘milagre econômico’ chinês” (pg. 66); “E já agora, neste início do século XXI, é possível dizer que a internacionalização americana associada com o crescimento chinês já produziu uma mudança estrutural de longa duração no sistema mundial, com a criação de um novo centro nacional de acumulação de poder e de capital com capacidade gravitacional equivalente à dos Estados Unidos” (pg. 67). FIORI, J. L. O Sistema Interestatal Capitalista no Início do Século XXI. In: FIORI, J. L.; MEDEIROS, Carlos e SERRANO, Franklin. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro: Record, 2008, pg. 11-70. Voltar ao texto
  19. http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2009/update/02/pdf/0709.pdf Voltar ao texto
  20. http://siteresources.worldbank.org/INTGDF2009/Resources/gdf_ch01_007-036_web.pdf Voltar ao texto
  21. http://www.wto.org/english/res_e/booksp_e/anrep_e/world_trade_report09_e.pdf Voltar ao texto
  22. http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/02/09/materia.2009-02-09.0255627193/view Voltar ao texto
  23. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/07/090722_relatorioomcebc.shtml Voltar ao texto